Espera
Esperar
Esta convivência do prosaico das pessoas numa sala de espera do SUS, os olhos reparando e os ouvidos não deixando de ouvir, as ignorâncias de, ignorar as palavras e interpretações de pequenas legendas e semióticas, signos, para que este povo possa de alguma forma entender o que tem que ser feito, para onde ir, retirar um ticket de nº, para ser atendido, para depois ser compreendido ou ouvido pelo mero servidor público, que fala quase gritando e soletrando para todos.
Estas espécies, querendo apenas serem felizes, com algum resultado na mão .Para depois então, passar por outra fila esperando pela audição de seus nomes, “fulana de tal”, longas horas de espera, sono, fome, esperança, as vezes de pé, as vezes sentadas, cruza e descruza pernas, neste movimento melódico de cada nome sendo chamado e do susto de cada um, pois, agora é minha vez? E, para tudo. Descruza pernas, pensa na vida, estica pernas, quem foi sábio levou alguma coisa para ler, mas muito incomum ver isto por ali.
A onda continua num rumor de conversas entre pessoas que nunca se viram, contam coisas, causos, alarmes falsos, remédios, dores, partos, que pena, contam horrores uns para os outros, fatos de coisas estrambólicas, tipos de tumores retirados com cores assim e assim.
E foi passando o tempo, os sons são os mesmos, ranger das portas que se abrem sozinhas a cada instante da chegada de uma nova persona, no amplo espaço de espera, cada vez que a porta abre entra uma lufada de frio, e agora como convíva, encolho minhas pernas e me concentro no livro, na espera da chamada, que “pour moi c’est indiferant”, porque o que estou lendo ta muito bom, me faz ficar ausente desse mundo ali, e do mundo da onde me esperam, por isto posso ficar por horas ali, quase me sentindo em um planeta, onde as pessoas ficam eternamente esperando por resultados e esperanças.
