Thursday, September 28, 2006

Chá das primas


Acho que todas esperávamos com ansiedade, aquele sábado que nos reuniríamos, agora mais perto do dia especial a inquietação aumentava na esperança que tudo desse certo e que todas pudessem comparecer, já sabendo que uma de nós não viria mesmo. Acho que lá na casa da nossa querida anfitriã as coisas andavam muito mais agitadas e eufóricas de uma expectativa cheia de atividades e arrumações com surpresas avassaladoras.
Arrumar os cabelos, procurar no armário a melhor roupa para aquela ocasião tão especial. E já tinha passado um ano do último encontro estaríamos mais velhas, cheias de novidades e bagagens alegres e sofridas no coração, sem deixar transbordar, tentar disfarçar, pois era dia de alegria e o reencontro de primas e tias tão queridas fazia pairar no ar uma vibração de harmonia e leveza e logo estaríamos todas tagarelando como loucas sem tempo para comer aquelas maravilhas que ali estavam na mesa arrumada com tanto capricho e requinte pela nossa tia.
A tarde passou tão rápido e emocionante de conversas entrelaçadas e muitas fotos.
E a minha mente repassando tudo isto na manhã seguinte, cada palavra dita e respondida, deveria ter falado mais, ou melhor, não falar tanto, observar mais, ser mais acolhedora das idéias alheias, acolher todas mais para perto uma das outras e principalmente olhar pacientemente, com jovialidade para as nossas tias e mães já idosas, mas tão cheias de vida pra compartilhar.

Thursday, September 14, 2006

Ouvindo uma música




Quando ouço um som, este enche o peito de emoção, de tal maneira que parece que não cabe, que vai explodir dentro de nós.Às vezes entra no ouvido, com tanta emoção, que não consigo cantarolar uma frase ou mesmo assobiar, porque as lágrimas trancam a garganta não deixando um espaço para a ação.
Quando há muito tempo ainda lá na Vila Assunção, éramos todos adolescentes naquela enorme casa, nos sábados à tarde, quase finais da tarde, o meu irmão mais velho gostava de ouvir uma radio que nos embalava ao som uma vontade de sair, ir pra “noite”, balada, e ouvindo músicas íamos tramando a saída noturna, como iríamos, onde, com quem, claro que tínhamos as preferências já estabelecidas e naquela época morar lá, era muito longe.
A música sempre no embalo das nossas vidas, aquelas que condicionavam alegrias que viriam naquela noite, de ver os amigos e rir muito e a música do nosso amor que íamos abraçar e beijar a noite inteira, pra no final lá pelas três e meia da manhã voltar com uma carona maluca de um amigo.Este emprestava um carro da tia dele, um Austin, sem limpador de pára-brisa, indo em direção a zona sul, chovendo muito, na frente ia o amigo motorista e um faixa, no banco de traz, íamos os três irmãos contentes com a carona, mas com os olhos estalados de agonia e íamos pelo longo caminho interminável, e que numa esquina, ele errou a avenida e entrou em uma rua onde não devia.
Então fomos parados pelos militares, de fuzil e metralhadoras num atraque de arrepiar, pois eram os tempos de ditadura, os cinco dentro do carro, que loucura, depois de mostrar documentos e levar uma luz de lanterna em cada cara, fomos liberados, e lá fomos, noite adentro via Beira rio, lá na nossa casa, a mamãe e o papai dormiam tranqüilos.
Logo já estaria com a minha cabeça no travesseiro e adormeceria embalada pelos sons daquela noite delirante de romance e aventuras.
Guardo esta noite na minha memória, com uma percepção de escuridão, frio, decisões e algum amor perdido pelas emoções de uma música dançada, juntinha com um alguém.

Wednesday, September 13, 2006

Antes do almoço


Antes do almoço

Quando não vamos mais precisar de outras pessoas para poder ser mais ou menos felizes, isto fica claro que jamais seríamos então felizes se fossemos sozinhos de qualquer maneira, para ai só então cair na armadilha de ficar e querer ficar só, mas com tantos em nossa volta e tantos querendo que sejamos felizes e que a vida é assim mesmo, que podíamos ficar um pouco mais perto daqueles que amamos sem querer nada em troca. Mas esperar uma recompensa das pessoas é em vão, sempre será uma frustração de escolha para a vida compartilhada. Porque os caminhos seguem seus rumos e obstáculos diferentes para cada um, sob seu ponto de vista, ao iniciarem uma vida a dois, jamais passa pela cabeça estas questões.E hoje era um dia assim...
Chovia muito naquela manhã, de quase primavera, os raios forçavam um clarão na manhã muito escura que já chegava perto das 11h00. Iriam cozinhar legumes, lavar saladas, esquentar o feijão, começariam a fritar umas cebolas para começar o guisado e por último colocar o arroz no fogo baixo.
Sempre vem o aroma de outros tempos, aquele lá daquela outra casa, muito grande e cheia de viventes, moradores de um casarão de muitos quartos e muitas almas. Pessoas que passaram por ali e compartilharam suas vidas e alegrias.
Algumas manhãs assim também aconteciam por lá, manhãs cheirosas e cheias de murmúrios, pensamentos que voavam de mentes cheias de idéias e ideais.
O cheiro de comidas começava muito cedo, e a casa toda ficava naquela leve fragrância de comida misturada ao cheirinho bom de roupas limpas no varal.
E como dizia a minha mãe, a nossa avó “bordava” a mesa com variedades de pratos aprendidos com muito zelo nos tempos que ela vivera num hotel.
E as manhãs também chegavam ao fim, com todos sentados à mesa e porque não dizer felizes.

Tuesday, September 05, 2006

Novidades


Novidades

Muitas novidades felizes, vão nos deixando com uma alegria de viver num sentimento de saltimbancos, de alegria quase sem ver os dias de nuvens negras que passam rasante por sobre nossas cabeças tão frágeis de cidadãos que temos que honrar a cada instante, desta vida de culpa católica inflexível, que não me deixa buscar água em outras fontes para depois banhar o meu corpo inocente desta trama toda em que nos metemos para além da vivência.
Saem estas palavras malucas do meu cérebro, para me confundir com o meu realismo quase melancólico de outros tempos.
Às vezes me julgo incapaz de negociar umas pequenas palavras com este teclado por onde meus dedos de unhas feitas deslizam sem parar, impulsionados por uma voz baixinha no meu ouvido que me dita estes pensamentos.
Como disse, as novidades vem e vão como nuvens de alegria ou tristezas ou talvez nos trazendo paz ao coração de quem nos diz alguma coisa logo pela manhã algo que nos faz parar e refletir sobre o que esta sendo dito, de uma forma doce, mas bem ferino. E que me remete a julgar, e que não condeno que as pessoas digam, abram de coração para alcançar os vôos mais altos de suas mentes nem sempre lúcidas na forma de expressar o que estão imaginando.Hoje o cheiro de uma maçã de uma pessoa que passou por mim, me levou lá no recreio do colégio Santa Terezinha por volta de 1964, quando algumas coleginhas mais ricas levavam,
maçã de merenda, e aquela pessoa passou bem próximo de mim deixando aquela recordação da fome na hora do recreio antes de brincar de roda e continuei caminhando com aquele cheiro e a recordação de mãos dadas pelo parque e fui ficando pequenina de saia pregueada, meia branca americana até o joelho e um buraco no estomago, era hora do meu lanche da dieta da manhã...